Administrar diferenças e indiferenças também é uma árdua tarefa que um bom síndico precisa saber como conduzir, sem tomar partido dos anseios de ambas as partes.
Desentendimentos entre vizinhos são bastante comuns, no que tange a questão de horários para barulho, mudanças, animais domésticos e algazarras de crianças.
Crianças, serão sempre crianças, adolescentes, serão sempre adolescentes e pessoas mais maduras, que prezam por uma extrema tranquilidade ao seu redor, vão sempre exigir que se faça cumprir um regulamento para encontrarem o silencio que almejam. Como convencer um idoso que preza por um total sossego, que as crianças que moram em cima dele ou ao lado dele, embora advertidos pelos pais, continuarão sendo crianças ?
Essas situações, que são bastante comuns, muitas vezes colocam o síndico em “check!”. Nessa hora é preciso habilidade, cautela e muita imparcialidade para que as providencias tomadas sejam de sucesso para todos, sem parecer que o evento foi criado por conta do síndico.
Muitos casos de desentendimento são facilmente resolvidos quando se reúnem as partes e se intermedia uma conversa pacífica (quando assim couber!). Há casos onde é impossível uma conversa por conta do nível de enfurecimento das pessoas e o síndico precisa, nesses casos, ter muita sensibilidade para saber se convida as partes para uma reunião ou apenas as notifica sobre os eventos.
Em uma das minhas experiências, um senhor de idade, que vivia sozinho, constantemente reclamava da vizinha ao lado. Recebi até reclamações de que o canário da vizinha começava a cantar às 05h da manhã e perturbava seu sono…
Em uma conversa muito amigável com a vizinha, trouxe a consciência dela de que muitas das reclamações poderiam ser evitadas se ela mostrasse ao vizinho de que ela se importava com ele. De que receberia alguns visitantes e talvez o nível de vozes pudesse se exceder um pouco além do horário permitido. De que tentou levar o passarinho para a única prima q morava em casa e ela recusou o “bichinho”. Enfim, o que orientei à vizinha era para que apenas mostrasse ao vizinho que se importava com ele.
Nesse momento, a moradora, bastante aborrecida se demonstrou indignada por ter que começar a “dar satisfação” da sua vida pessoal a um estranho. No entanto, meu pedido era para apenas fazer um teste. Comunicar a ele previamente por dois eventos dos barulhos que tanto incomodavam aquele senhor. Mesmo a muito “contra gosto” a vizinha seguiu minha sugestão.
Por mais incrível que pareça, depois de um mês, exatamente quatro semanas depois, a própria vizinha cruzou comigo no elevador e me surpreendeu com o testemunho de que o vizinho já não à incomodava. Disse que ligou para ele por algumas vezes, dando um notável exemplo de civilidade. Relatou que o informa, conforme minha orientação e que por mais incrível que pareça, o vizinho parou de incomodá-la. Eu mesmo me senti surpreso, pois o vizinho, nunca mais havia me procurado para reclamar da mesma.
Curioso foi encontrar com esse vizinho depois de mais algum tempo e o mesmo chegou a dizer “Puxa, agora estou me dando muito bem com a vizinha. Ela nunca mais fez barulhos. Sabe que agora, nem o canário me aborrece mais. Não sei o que o senhor disse a ela, mas agradeço pela ajuda. Agora convivemos pacificamente.”
É claro que esse exemplo é um dos eventos mais simples que tenho como um grande “case” de sucesso, pois ter a habilidade de convencer alguém que não está errado a procurar pela pacificação é uma tarefa e tanto.
Ainda que todas as situações não sejam assim, simplesmente resolvidas, a maior dica que posso oferecer com base em minha experiência é: Toda e qualquer reclamação deve ser formalizada por escrito.
Um livro de ocorrências é uma boa ideia, porém, melhor que ela é pedir para o condômino entregar uma cartinha, de próprio punho, formalizando a reclamação. Quando o síndico pede para a administradora notificar uma unidade é essencial ter a origem da notificação em mãos. Não para indispor os vizinhos, mas sim, para manter total isenção da situação.
O morador notificado tem que ter a nítida consciência de que a notificação foi oriunda de uma reclamação formal e não por um posicionamento do síndico em favor do reclamante. Ter toda e qualquer reclamação perfeitamente documentada é a forma mais simples de se manter imparcial e garantir que as partes entrem em um acordo amigável ou discutido juridicamente, ISENTANDO o condomínio de “custear” parte da resolução dos problemas, ou ainda, ter que envolver funcionários e até mesmo o síndico em demandas jurídicas, o que é extremamente desagradável.
Independente da forma de resolução dessas situações, o síndico tem um importantíssimo papel perante os envolvidos e todo o condomínio. Ser imparcial e altamente talentoso em respeitar as diferenças entre as pessoas no mais alto nível de educação, mantendo o apreço por todos os envolvidos, é imprescindível.